Cansei de ser princesa: Cinderela

– Não aguento mais estes sapatos… Cristal está longe do ideal de conforto para uma festa – pensava Cinderela enquanto tentava se manter em pé por mais algumas horas no baile.

O desconforto se unia ao cansaço de mais um dia inteiro de trabalho em casa, fazendo todas as tarefas domésticas para as irmãs e a madrasta. Mas Cinderela estava decidida: não perderia essa única chance de diversão.

– Quer saber? Vou me jogar descalça na pista de dança!

Cinderela deixou os sapatos em um canto qualquer e foi curtir o baile. Ela estava tão feliz, e aliviada sem aqueles dois tormentos de cristal nos pés, que logo chamou a atenção de um dos convidados.

– Olá, qual é o seu nome?
– Oi… Cinderela. E o seu?
– Príncipe Encantado.
– Ah, corta essa! Isso aqui é a vida real, não uma história de príncipes.
– Mas é verdade! Não tenho culpa se nasci filho do rei.
– É sério?
– Sim…
– Puxa… Desculpe aí, eu não fazia ideia de que príncipes realmente vinham a bailes. Achei que ficassem nos castelos aproveitando o dinheiro.
– Tem sido assim em todos os bailes. Ninguém mais acredita que príncipes podem aparecer a qualquer momento. E hoje eu nem vim no meu cavalo branco para não parecer um ator contratado para animar o evento.

Cinderela não aguentou e caiu na gargalhada. Príncipe ou não, o rapaz era engraçado.

– Você ri, mas pode acreditar: não tem sido fácil. Todo baile é o mesmo bullying porque sou um príncipe em busca de uma princesa para o reino.
– Princesa? Neste baile? Achei que vocês só se casassem com pessoas de outras famílias reais.
– Em que mundo você está vivendo, garota? Casamentos arranjados ficaram no passado. E as mulheres do povo, as que são realmente interessantes, não estão mais atrás de um casamento real. Elas querem estudar, trabalhar, ter uma carreira e, só depois, pensar em se casar, mesmo que seja com um príncipe.
– Nisso você tem razão. Eu não me casaria agora de jeito nenhum. Não sem antes sair da casa da minha madrasta e arrumar um trabalho de verdade.
– Acho que vou me tornar um rei solteiro.

Faltavam 5 minutos para a meia-noite quando Cinderela olhou para o relógio. Era preciso correr. Estar naquele baile tinha custado muito para a Fada Madrinha, que usara suas economias do mês no vestido e sapatos, e ainda havia pagado o Uber de ida e volta. Se ela perdesse o transporte agendado, estaria encrencada e sem carona.

– Eu preciso ir embora – disse Cinderela já correndo para a porta.
– Mas já? Eu gostei de conversar com você. Podemos nos ver de novo? – foi falando o príncipe atrás da garota descalça.
– Amanhã, na praça central do reino. Espere por mim ao meio-dia.

Foi por pouco! Quando Cinderela entrou no carro, o motorista estava prestes a cancelar a viagem. Mas nada poderia estragar aquela noite. Era a comemoração por finalmente ter tomado coragem. No dia seguinte, ela sairia antes de as irmãs e a madrasta acordarem (e de ônibus, pois a Fada Madrinha estava sem dinheiro até o próximo pagamento encantado) e procuraria por um emprego. Era a única forma de deixar de ser a escrava da família.

Na manhã seguinte, ela colocou as poucas roupas que tinha em uma mochila e pôs os pés na rua. Levou algumas horas e diversas conversas para que conseguisse uma oportunidade numa lanchonete.

Às 12h30, Cinderela chegou à praça. De longe, viu algo brilhar sob a luz do Sol em cima de um banco. Eram os sapatos dolorosos de cristal. Ao lado deles, o tal príncipe parecia ansioso.

– Achei você não fosse aparecer. Estava quase desistindo – logo disse o príncipe.
– Andei a manhã inteira atrás de um emprego e… Consegui! – respondeu Cinderela dando pulos de alegria.
– Parabéns! Mas eu tenho uma ideia melhor: case-se comigo! Você nunca mais precisará trabalhar e ainda vai morar no castelo.
– Você só pode estar maluco… Nem me conhece direito e já quer casar comigo? Além disso, levei anos para me livrar de uma vida totalmente dependente dos outros. Agora que consegui, não vou passar a viver em função de outra pessoa.

O príncipe ficou sem resposta. Ele ainda não entendia esse mundo de mulheres que preferiam trabalhar a ser princesas.

– Posso ao menos ver você de novo? – perguntou o rapaz, espantado diante de uma jovem tão decidida.
– Por que não poderia? – Cinderela estava começando a simpatizar com ele.
– Ah, já ia me esquecendo. Estes sapatos são seus? Encontrei o par num canto do baile e reparei que você saiu descalça ontem.
– Você acabou de salvar a minha vida! Esses são os piores sapatos do mundo, mas vão servir como uma luva neste momento.

Sem entender nada, o príncipe foi embora, prometendo voltar no dia seguinte. Cinderela pegou os sapatos e foi à lanchonete onde havia conseguido o emprego. Em troca daquela maravilha que acabava com os pés de qualquer pessoa, ela conseguiu o salário adiantado do primeiro mês. Seria o suficiente para alugar um quarto e sala.

Cinderela viveria feliz. Ao menos por um mês. O que viria depois eram suposições demais a se fazer.

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