E se… um jacaré batesse em sua porta pedindo uma xícara de açúcar?

Decidi abrir os olhos. Será que toda aquela conversa na vizinhança não passava de um sonho?

– Acho melhor chamar os bombeiros! – dizia uma voz de mulher.
– Faz tempo que isso não acontece. Algo deve ter dado muito errado! – respondia um senhor um tanto nervoso.
– Pai! Pai! Eu não disse? Ela existe, sim! E está batendo na porta ao lado – do que essa garotinha estaria falando?

Se as palavras eram sonho mesmo, eu não sabia, Mas o toc-toc na porta da minha casa parecia bastante real.

Desci as escadas. Missão: me livrar o mais rápido possível de quem quer que fosse. Era domingo de manhã e meu irmão mais novo tinha parado de chorar há menos de 2 horas. Meus pais dormiam e eu só queria fazer a mesma coisa.

Abri a porta e esfreguei os olhos. Um jacaré se esforçava para parecer simpático.

– Bom dia! Não se lembra de mim? Entendo… Faz tempo que você não me leva a sério. Algo normal para quem já tem 12 anos.

Não corri. Não gritei. Não desmaiei.

– Não fique aí parado com essa cara de bobo. Sou eu! A Cuca que assombra as
crianças desta cidade há séculos.

Meus pais me contavam muitas histórias quando eu era menor. Eu adorava imaginar mundos superfantásticos. Cheguei a desejar, com todas as forças, que a realidade fosse mesmo como na ficção.

– Credo, nunca vi ninguém mais pálido. Ande, vá tomar um copo de água com açúcar e aproveite para trazer uma boa xícara dessa delícia branquinha para mim. Meu estoque acabou ontem e nenhum de vocês cuidou do reabastecimento. Humanos… Era a vez dos seus pais, sabia?
– Como… assim?
– Você é meio devagar, garoto! Cucas ficam ainda mais terríveis quando passam mais de um dia sem uma dose de açúcar. Eu bem que tentei avisar ontem à noite sobre o fim do estoque, mas parece que seu irmão tem mais medo de mim do que você tinha.

– Você veio aqui ontem?
– Aff… Sua demora só está me deixando ainda mais nervosa. Quer que eu acorde o bebê?

Corri, peguei o açúcar, entreguei para o jacaré e tranquei a porta. No mesmo instante, todos os vizinhos fecharam as janelas por onde olhavam discretamente. Voltei para a cama. Fosse pesadelo ou não, tomei uma decisão ao acordar horas mais tarde: nunca mais dormiria sem antes deixar uma xícara de açúcar no quintal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s