Um novo mundo dentro da minha escrita

No último dia 29 de junho, ganhei o certificado que você está vendo na foto. Foram 36 horas no curso Oficina de Literatura Infantil: Criação e Prática, com o escritor Cláudio Fragata, ganhador do Prêmio Jabuti com o livro infantil Alfabeto Escalafobético. Como eu disse em redes sociais, foram alguns meses entrando em um portal: sentar na sala de aula e trocar experiências com o Cláudio e os outros alunos do curso era como abrir um novo mundo dentro da minha escrita. Missão cumprida, mundo definitivamente aberto.

Para estrear esse universo, quero compartilhar aqui os dois últimos textos produzidos no curso. Muitas outras histórias vêm por aí! Aguardem!


O lápis e o papel brigaram
Não faziam mais uma linha
Sem querer, eles se olharam
Era a tal da picuinha


Reconto do conto A Pequena Vendedora de Fósforos, de Hans Christian Andersen

A Pequena Vendedora de Fogo

Fósforos. Eu sei, eles são úteis. Ainda mais no inverno. Eu só não entendia por que ainda não tinham inventado um jeito mais fácil de criar fogo. Algo que durasse mais!

Foi por isso que decidi, em uma noite de Ano-Novo: a partir do dia seguinte, eu seria conhecida como A Pequena Vendedora de Fogo. Deixaria o ramo de fósforos e criaria o fogo que dura para sempre.

Era até meio óbvio: a chama só apaga porque a parte do fósforo que pega fogo chega ao fim. Eu precisava de algo que criasse chamas sem nunca terminar.

Comecei a imaginar o que poderia ser essa tal coisa eternamente pegando fogo. Era necessário fazer testes. Talvez com alguns objetos em minha casa. Mas não havia quase nada por lá. Eu e meu pai não tínhamos cobertores nem livros. Nada em grande quantidade. E ventava tanto lá dentro que seria bem capaz de o fogo se apagar mais rápido em minha casa do que na rua.

Pensei, com uma culpa que logo passou: seria muita maldade queimar algumas roupas do meu pai? Concluí que não. Ele era bem pior comigo quando eu voltava para casa sem dinheiro por não ter vendido os fósforos.

Mas só as poucas roupas dele não bastariam. Foi então que tive a grande ideia! Era noite de Ano-Novo. Bastava esperar as pessoas jogarem restos de comida da ceia fora e dois problemas estariam resolvidos: a minha fome e o material para queimar.

Seria preciso aguentar o frio das ruas por umas três horas até que a vizinhança, de barriga cheia, começasse a se desfazer dos restos. Como passar o tempo enquanto isso?

Acendi só um fósforo. A perda de um deles não faria diferença para o meu plano. A chama era tão bonita e quente. Pensei: eu poderia viver em um mundo inteiro feito de fogo. Nem me importaria com uma ou outra queimadura. Com o fogo, você inventa muitas coisas. Já com toda a neve daquele inverno, a gente só ganhava escorregões e roxos pelo corpo.

Entre meus pensamentos, confesso que perdi um pouco o controle da situação. Acendi uns cinco fósforos. Tudo bem! O que eu tinha nos bolsos ainda era suficiente para colocar o plano em ação.

Fui para os fundos da primeira casa que encontrei. Pela janela, dava para ver todo mundo se empanturrando de uma ave enorme e deliciosa. Ao menos, era o que parecia para mim. Nunca tinha tido o prazer de comer algo tão grande e bonito.

Esperei, com toda a paciência que eu era capaz de ter. Que demora! Como o ser humano pode comer tanto de uma vez? Acendi só mais um fósforo e pus fogo em só uma camisa do meu pai. Foi o suficiente para chamar a atenção dos moradores.

Escutei barulho, apaguei o fogo da camisa e me escondi. Um homem alto e com cara de que a comida não tinha caído bem veio ver o que estava acontecendo. Para a minha sorte, ele trouxe uma parte do lixo. Despejou um monte de coisas dentro de uma lata.

Era a minha chance!

Essa pode não ter sido a mais genial e superincrível ideia do mundo. Mas decidi arrastar a lata. É claro que fiz ainda mais barulho. Corri! Corri o máximo que pude. Nem liguei para aquele homem estressado berrando para que eu parasse.

Entrei em um beco e respirei fundo. Ele não tinha se dado ao trabalho de me seguir. Acho que só eu andava pelas ruas congelantes daquela noite.

O que existia dentro do lixo eram os ossos da tal ave. Lambi e mordi tudo até meus dentes doerem. Eu nunca tinha colocado fogo em ossos, mas valia a pena tentar. Fiz um pequeno monte, misturando os restos de comida com as poucas roupas do meu pai. Ficou pequeno. Joguei meu único casaco por cima.

Acendi alguns fósforo e… Fogo! Havia fogo! E um cheiro horrível! Fedor de coisa de morta, sabe?

Fiquei saltitante com o calor que surgiu, no maior esforço para ignorar o que entrava pelo meu nariz. Tudo estava resolvido. O fogo parecia tão grande. Ele não se apagaria nunca. Na manhã do dia seguinte, eu chamaria todas as pessoas que já haviam comprado fósforos de mim para vender a mágica do fogo eterno de ossos.

O alívio do momento e a fome que já não roncava tanto fizeram com que eu relaxasse. Encostei em um canto do beco e fiquei admirando minha genialidade. Acho que peguei no sono.

Deve ter esfriado ainda mais naquela noite. Lembro de momentos em que meu corpo parecia tremer como se eu estivesse dentro de um trem velho.

Quando acordei, não vi mais o beco. Senti raiva! Tive certeza de que alguém havia roubado meu fogo eterno de ossos!

Agora, moro em uma casa grande. Não sinto frio. Meu estômago não ronca mais. Posso atravessar as paredes. Brinco de esconde-esconde com as crianças daqui e elas nunca me encontram. A fama da Pequena Vendedora de Fogo não aconteceu. Fracasso? Pode ser. Mas quem precisa saber?

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